domingo, 11 de dezembro de 2016

O poder do rumor: reflexões sobre o Grande Medo (1789)

O Grande Medo (em francês Grand Peur) foi uma onda de revoltas camponesas que varreu a França entre o período de julho a agosto de 1789. Essas revoltas foram causadas por preocupações econômicas, o pânico no campo e o poder do boato. Entusiasmados com as novidades políticas no verão de 1789, os camponeses começaram a ouvir rumores sobre "bandoleiros" que aparentemente estavam invadindo e saqueando as aldeias. Esses rumores apareceram em diferentes lugares, tomaram formas diferentes e invocaram diferentes níveis de resposta. Muitos camponeses responderam armando-se e se mobilizando para defender sua propriedade. Alguns foram mais longe e engajados na violência revolucionária, saqueando viajantes nas estradas, roubando os castelos de aristocratas e destruindo contratos feudais. 

Os camponeses, ao que parece, tornaram-se os bandidos destrutivos que inicialmente temiam. Enquanto poucas pessoas foram mortas durante o Grande Medo, milhões de libras foram roubadas ou destruídas. A história do Grande Medo começa com a paranoia envolvendo grupos de pessoas forasteiras. Os camponeses franceses estavam acostumados a pessoas de fora que chegavam em sua região, geralmente no meio do ano, quando o verão propiciava viagens mais fáceis. Alguns desses estrangeiros eram trabalhadores sem terra ou pessoas da cidade em busca de trabalho remunerado. Os outros eram mendigos, vagabundos e marginalizados que decidiram viver fora da cidade para procurar a caridade dos agricultores nos campos. As comunidades camponesas eram, por sua natureza, aversa a estranhos. Os novos forasteiros competiam por trabalho, comida e caridade fornecidos pela paróquia local. A situação foi particularmente crítica na primavera de 1789, época em que a França sofreu a pior crise alimentar em vários anos. 


Mesmo as pequenas reservas de grãos estavam diminuindo. De acordo com Georges Lefebvre no seu estudo "O Grande Medo de 1789" [1] o número de forasteiros nas áreas rurais atingiu níveis alarmantes.
Os trabalhadores desempregados deslocados pela crise da indústria estavam em toda parte em busca de empregos [...] Vagabundos e mendigos sempre foram uma fonte de preocupação para o pequeno proprietário rural, sufocaram as estradas e ameaçaram represálias contra os chefes de família que se recusaram a dar-lhes abrigo ou um pedaço de pão. Homens e mulheres invadiam florestas e campos e roubavam a lenha e os grãos antes que a colheita estivesse madura.
As comunidades camponesas também foram perturbadas pelos acontecimentos políticos de 1788-89. A convocação dos Estados Gerais e a elaboração dos cahiers criaram um clima de otimismo e expectativa em todo o país. O processo de escrever os cahiers foi politicamente estimulante porque trouxe camponeses juntos para discutir sua situação e compartilhar suas queixas, particularmente os encargos dos impostos reais e taxas feudais. A notícia da formação da Assembléia Nacional, do juramento do Tribunal de Tênis e da aceitação do rei pela reforma causou entusiasmo nas comunidades camponesas - mas essa excitação foi de curta duração. Em meados de julho, as notícias chegaram às províncias de que o rei tinha mobilizado suas tropas e demitido seu diretor de finanças, Jacques Necker. Isso abriu a brecha para boatos e teorias da conspiração que sugeriam uma contra-revolução realista ou aristocrática iminente. Essas histórias tomaram diferentes formas em diferentes regiões. 



O rumor mais comum era que o rei ou seus nobres conservadores haviam empregado bandos de tropas estrangeiras ou bandidos para marchar para as províncias e colocar o povo de joelhos com violência, saques e destruição indiscriminada. Esses temores de retribuição real e aristocrática se espalharam exponencialmente no final de julho, como o próprio Lefebvre disse, "o medo produziu medo". Lefebvre e historiadores posteriores tentaram acompanhar o curso do Grande Medo, embora com apenas um sucesso parcial. A circulação dos rumores era rápida. Há relatos do mesmo boato que aparecem em lugares a 20 milhas de distância no mesmo dia. À medida que esses rumores circulavam, algumas comunidades camponesas ficaram convencidas de que os bandidos contratados estavam marchando em seu caminho. Nesse clima paranóico, mesmo o evento mais benigno - um avistamento de estranhos, movimento à distância, fumaça no horizonte - poderia desencadear uma resposta em pânico. O Grande Medo foi um tipo de insurreição popular muito específico, pois tinha natureza espontânea, esporádica, e destituída de organização. Os estudos historiográficos ainda não apresentaram uma conclusão concreta do que levou ao pânico generalizado entre julho e agosto de 1789. Algumas teorias mais "extravagantes" afirmam que os camponeses haviam consumido farinha contaminada com o fungo responsável pelo composto ativo presente no LSD, o que seria a causa de tantos delírios e paranoias na população do campo.


Autora: Andressa Freitas dos Santos, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.

[1] O Grande Medo de 1789.

As novas ideias revolucionárias e o medo da monarquia.

A Revolução Francesa ocorreu num período em que houve uma grande seca e fome generalizada, estes fatores que se somaram a outros, e fizeram com que a população urbana de Paris se revoltasse contra o rei, propagando uma revolta entre os camponeses no campo pela nobreza. A burguesia, temendo engrossar a lista de desafetos da população mais humilde, acabou tomando a frente, transformando o que era uma revolução puramente popular em burguesa. Mas o resultado disso foi uma fase de instabilidade política e social. 

A imagem do rei estava relacionada, desde a formação dos estados feudais, a princípios religiosos. Os ritos de coroação, que eram mediados pela Igreja Católica, sacralizavam o poder real. Desde o medievo, o rei era um monarca absolutista, consagrado por Deus, portanto, ninguém poderia contrariar suas decisões e mudar as leis era sua prerrogativa. A legitimidade politica de um rei absolutista provinha do poder divino. Um rei era proprietário de um reino, que era seu patrimônio familiar legítimo. 

Os princípios ideológicos do absolutismo defendiam a soberania do estado sobre o individuo, por meio de argumentos como a "do direito divino" e da "soberania do estado". O primeiro pressupunha que o poder do rei provinha diretamente de Deus e contestar o soberano significava opor-se a vontade de Deus dessa forma a população tinha medo de combater a opressão monárquica com receio de que estivesse se levantando contra Deus.. O segundo defendia que as leis de uma nação dependiam exclusivamente da vontade do rei, representante supremo do estado. A atribuição de certos poderes divinos a figura do rei, como exemplo Luís XIV, marcou ápice da monarquia francesa. 

É importante destacar que, embora o conceito de revolução acarreta na ideia de mudanças acentuadas, pragmaticamente, a análise histórica braudeliana nos permite perceber que qualquer modificação da conjuntura é sempre paulatina, com causas e origens distantes do fato em perspectiva. 

Ao assumir o trono em 1774, Luís XVI, recebia uma França envolvida pelo inicio da hegemonia inglesa, mas que almejava maior poder político e nivelamento proporcional aos privilégios da nobreza; concomitantemente, as altas taxas cobradas para manter o conforto dos nobres causavam grande insatisfação nos camponeses que aspiravam libertar-se das obrigações feudais que ainda estavam em vigor. Maquiavel traz um argumento realista acerca do poder e do homem; ele aconselha o rei a governar em nome de uma razão destina a fortalecer e consolidar o poder do soberano. Dito isto, o tumultuado processo revolucionário francês disseminou um medo profundo na monarquia, que via como necessário o combate ao avanço dos movimentos revolucionários, pois havia grande receio de que o soberano perdesse sua coroa e, consequentemente, seu poder. 

As ideias liberais iluministas adentraram rapidamente os pensamentos da população. A propagação era tanta que alguns reis absolutistas foram tomados por grande medo de perder o governo e começaram a aceitar alguns ideais iluministas. Estes monarcas ficaram conhecidos como Déspotas Esclarecidos, pois tentavam adequar o modo de governar absolutista com o progresso iluminista. Segundo a natureza, o Governo despótico é o Governo em que "um só, sem leis nem freios, arrasta tudo e todos atrás dos seus desejos e caprichos" (Livro II, c. I). Segundo o princípio, o Governo despótico se rege pelo medo, enquanto que o monárquico se guia pela honra e o republicano pela virtude [...] Montesquieu [porém] mantém inalterado o da relação servil entre governantes e governados. [1] 


Autora: Leydiane Nóbrega, estudante da graduação do curso de História (Licenciatura) da UFRN.


Referências: 


[1] BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 11. ed. Brasília: Editora UnB, 1998. Vol. I. 

ARENDT, Hannah. Da Revolução. São Paulo: Ática, 1988. 

VOLVELLE, Michael. A Revolução Francesa (1789-1799). Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O segredo sob a perspectiva do medo: a maçonaria

É no contexto do Antigo Regime que a Maçonaria se estabelece como uma sociedade secreta que resiste ao sistema vigente do absolutismo. Para entendermos melhor a estrutura da maçonaria e a importância do segredo primeiro devemos nos remeter ao seu contexto de origem e o motivo do silêncio do que acontece dentro do seu seio. As lojas Maçônicas originaram-se por volta do século XVII na Inglaterra e Escócia. No século XVIII houve uma considerável expansão da maçonaria culminando em uma sociedade em que homens estavam interconectados pelo entendimento comum de valores como liberdade, igualdade e fraternidade. É evidente que esses valores representam, também, a perspectiva do Século das Luzes. Sob a ótica do Antigo Regime esses valores parecem romper a estrutura homem – súdito. Reinhart Koselleck [1] argumenta que “o homem deve realizar-se politicamente como homem” [2], e que isso por si só simboliza uma desagregação do Estado Absolutista. Koselleck ainda discute que a estrutura maçônica por si só representava uma sociedade que ia contra aos princípios do sistema absolutista. A sociedade maçônica representava aquilo que o Estado deveria ser, o reflexo do microcosmo maçônico esperava ser refletido no macrocosmo da sociedade. O elemento conector dessa sociedade residia justamente no fato de que a política não era partilhada por todos, nem mesmo pela classe burguesa, que havia ascendido economicamente. A liberdade ainda residia nas mãos do monarca e da aristocracia.

A maçonaria estava reunida em torno do desejo de uma maior participação política em um Estado que não aceitava a opinião pública, embora fosse uma sociedade em que se aceitava a exigência do poder soberano, mas que ao mesmo tempo lutava para contornar a força monárquica, todo o processo era realizado de forma silenciosa. Os maçons formaram um tipo de civilidade que se intensificou durante o absolutismo europeu. Constituía-se, portanto, numa nova configuração de organização achada pela nova elite - excluída da política-, aonde tinham liberdade para debater em espaços específicos como clubes, cafés, bibliotecas, bolsa de valores com total descrição a respeito de projetos políticos e sobre os assuntos internos da organização. O juramento que faziam para guardar o segredo o tornava fechado e impenetrável. Em torno dessa estrutura o segredo, o silêncio e a discrição eram ferramentas fundamentais para essa instituição sobreviver. O teor do segredo mudava conforme os diferentes sistemas, mas preservava a mesma função social, explica Koselleck. O segredo representava liberdade em relação ao domínio do Estado, essa era a essência das lojas maçônicas. A preservação desse segredo implicava cada vez mais em um grau de liberdade maior, que era atribuído à medida que se alcançava uma hierarquia mais alta dentro da maçonaria. A quebra desse segredo geraria a perda da liberdade, esse era o grande medo dentro dos círculos maçônicos. Essa liberdade só podia se desenvolver no Estado Absolutista apenas se permanecesse dentro das estruturas do foro interior secreto. Dentro do segredo os maçons encontraram a garantia de independência do Estado.


Goose and Gridiron, ilustração da primeira loja maçônica em Londres. Autoria desconhecida.

Koselleck demonstra que o segredo maçônico seria a segurança de proteção da nova sociedade, por este motivo a liberdade privada tornava a ser o segredo da liberdade. A unidade entre os irmãos também seria uma das atribuições do segredo. Quem possuía mais conhecimento sobre os segredos ou informações das organizações secretas, consequentemente detinha mais poder. O segredo guardava a chave de uma vida melhor. Após a iniciação o segredo criava uma comunidade, em que esse mesmo arcanum (segredo) constituía o elemento principal e basilar da fraternidade.

Quando estamos reunidos, somos todos irmãos, e o resto do Universo é estranho: o Príncipe e o Súdito, o Fidalgo e o Artesão, o Rico e o Pobre ali se distinguem; nada os distingue, nada os separa. O segredo separava os irmãos e o resto do mundo exterior. Assim, pela rejeição de todas as ordens sociais, religiosas ou estatais vigentes, desenvolveu-se uma nova elite que se concebia como humanidade. [2]

Os iniciados mantinham entre si uma forte coerência interna cujo elo conector era o segredo. Por outro lado esse aspecto ocasionava uma desconfiança e cautela com todo aquele que não fosse iniciado nos segredos da maçonaria. A traição do segredo dentro da maçonaria ocasionaria a dissolução do seu mundo interno, dessa forma destruindo toda a unidade da Ordem. O controle do segredo também serviu como forma de dominação dentro da maçonaria ao se instituir que um membro da fraternidade, antes de ser iniciado ou na própria mudança de grau, deveria confessar todos os seus segredos pessoais, fazendo uma espécie de relato sigiloso sobre si mesmo e entregar isso aos membros da hierarquia mais alta. 

Para poder subir  a Illuminatus major era preciso responder, como na admissão, a um enorme questionário que em suas 32 páginas impressas continha centenas de perguntas, destinadas a decifrar o espírito, o caráter e a condição socioeconômica do pretendente. [2]

Essa espécie de controle das informações dos membros da maçonaria faez com que outros membros detivessem informações que os outros não possuiam, implicando em uma dominação através do medo da informação ser espalhada, caso o iniciado de grau inferior infringisse alguma regra da Ordem. O temor, nesse caso específico, era de natureza moral, uma das coisas mais prezadas e cultivadas dentro da maçonaria. Um irmão jamais gostaria de ver sua imagem suja perante os outros membros, por isso deveria manter uma conduta que fosse condizente com as premissas da maçonaria. 

A nova sociedade era vista como uma ameaça ao absolutismo e para a Igreja que impulsionou atitudes como o decreto de Luis XV, em 1737, que censurava funcionários reais e administradores públicos de fazer parte das Lojas Maçônicas. Da mesma forma que o decreto do Papa Clemente XII, em 1740, proibia os católicos de possuírem vínculo com à Maçonaria. Segundo Koselleck, é no seio de uma das instituições típicas da esfera pública na França, as lojas maçônicas, que essa elite emergente, em proximidade com as ideologias iluministas, apoderar-se-á de autoconsciência em sua crítica contra o Estado e a Igreja. A maçonaria vivia conforme uma conduta cercada pela mística do segredo, qualidade que envolvia tanto a apreciação e também o medo, pois a quebra implicaria na destruição do lugar de refúgio dos maçons, preservar o segredo é a mesma coisa que conservar sua liberdade.


Autoras: Andressa Freitas dos Santos e Leydiande Damascena Nóbrega, estudantes da graduação de História (Licenciatura) da UFRN. 



[1] Reinhart Koselleck é um historiador alemão. Seu principal foco de pesquisa foi a chamada "história dos conceitos" 

[2] KOSSELECK, Reinhart. Crítica e Crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: EDUERJ: Contraponto, 1999. 

 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Um dos agentes de Satã: o judeu


Após o século XV, com a expansão marítima e com o desenvolvimento do comércio que progrediu no centro do corpo social da Espanha, emerge uma classe que procurava elevar-se socialmente. Nesse espaço temporal, os judeus tinham uma liberdade moderada, pois não eram perseguidos na Espanha, como acontecia no restante da Europa. Dessa forma, foi possível que o povo judeu desenvolvesse potencialidades no campo intelectual. Jean Delumeau [1] nos fala que os judeus haviam se tornado os financistas dos reis e foram responsáveis por compartilhar com os cristãos a ciência e filosofia árabes. Estes judeus alcançaram posições importantes na política e economia. Foram médicos, professores e filósofos. Na Idade Moderna, o temor aos judeus atingiu um nível religioso tendo a Igreja como a principal responsável pela multidão de atrocidades cometidas a nação judia. Esse embate lançou uma forte propaganda antijudaica, atribuindo aos judeus a culpa pelos males que atingiam a nação. Utilizando um tipo de fanatismo violento, a Igreja, conseguiu persuadir a população cristã a perseguir fortemente os judeus por quase toda a Espanha. Influenciaram os reis católicos a perseguirem aos judeus e novos convertidos. A igreja propagava a ideia de que os “infiéis” estavam roubando os cargos e privilégios que deveriam pertencer aos cristãos. 

O argumento utilizado, pelos reis e a Igreja, para a instauração da Inquisição era a urgência de eliminar a heresia judaica e os novos convertidos. Pois para a Igreja, os judeus contaminavam a sociedade e deveriam dessa forma ser extirpados definitivamente dela. Nota-se que os Estatutos de Pureza de Sangue, do Concílio de Toledo, vedavam os judeus até sétima geração, de integrar as corporações profissionais, universidades e possuírem ocupações nas ordens religiosas e militares. O fato de a Igreja ter sido a última instituição a adotar os estatutos de sangue evidencia que o racismo religioso sofrido pelos judeus tinha um caráter mais social do que religioso. A Igreja adotou uma espécie de pedagogia do medo, ou seja, um conjunto de ações que legitimaram e introduziram no imaginário da sociedade sentimentos de medo, e insegurança, em relação ao povo judeu. Pois era recorrente sentimentos de hostilidade e medo; racismo religioso e incitação ideológica, propagadas pelas instituições do poder. Nesse período os israelitas eram homens livres, porém a partir das cruzadas esse cenário começa a se modificar bruscamente. Fernand Braudel [2] destaca a evidente correlação entre os movimentos da conjuntura econômica e demográfica e as perseguições, massacres, expulsões e conversões forçadas que são o martirológico da história judia.
Até meados do século XII os judeus assumiram o comércio internacional, sendo este fator um dos motivos para o surgimento de novos convertidos ao judaísmo. 

O medo dos judeus foi ampliado devido a ascensão das cidades, e consequentemente do homem hebreu com uma nova função estabelecida dentro desse cénario da revolução comercial: o papel do comerciante. À medida que as cidades cresciam o comércio também sofreu uma ampliação jamais antes vivenciada e o judeu passou a ocupar um cargo em evidência que propiciou uma paulatina mudança em suas condições financeiras, a partir desse ponto as perseguições começaram a se agravar e severas condenações foram criadas em uma tentativa de "aplacar" o êxito judeu tanto no aspecto econômico, como no aspecto religioso. A Igreja, ambiciosa em estabelecer sua hegemonia pela unidade monolítica da fé, voltou a mostrar, para seus os fiéis, o judeu como sendo um inimigo da fé cristã, e contra ele encadeou-se um sentimento de intolerância provocados pela hostilidade e medo imbuídos pela Igreja católica. Como exemplo desse cenário social, o ato litúrgico da colafização, que permitia em toda a sexta-feira santa esbofetear um judeu diante da catedral de Toulouse, em expiação à morte de Cristo. O historiador Luiz Roberto Lopez [3] fala que divulgava-se a ideia do deicídio, ou seja, a acusação de que os judeus teriam sido os responsáveis pela morte de Cristo.

 Representação de um judeu sendo queimado em praça pública. Autoria: Spiezer Chronik, 1485. Acervo do Museu de Prado, Espanha.


Encarregados pela morte de Cristo eles passaram a ser instrumento de desconfiança, empatia e desdém por parte dos cristãos. Pois haviam cometido o crime de deicídio que maculara para sempre o povo judeu. Dessa forma, surgiu uma campanha aintijudaica que disseminou um fanatismo religioso por toda Europa ocidental. As Cruzadas, por sua vez, fortaleceram o sentimento de ódio dos cristãos para com os judeus e a Inquisição serviu como forma de conter todo pensamento que contestasse os dogmas católicos autoafirmando a vontade do catolicismo como ideal e centralizando um poder livre de restrições. Muitas calúnias contra os judeus foram difundidas, como a profanação da hóstia e de envenenamento dos poços de água. 
Atribuíram aos israelitas a epidemia da peste bubônica do século XIV (já tratamos anteriormente desse tema no blog, clique aqui para saber mais), que através de uma fictícia conspiração de judeus, estes teriam propagado a peste contaminando as fontes de água. O racismo e intolerância religiosa contra os judeus perdurou por muito tempo, até que as influências iluministas afastaram esses ódios e medos, ou pelo menos tentou com suas manifestações, coloca-los em segundo plano nos porões dos acontecimentos. As heresias representavam para a Igreja o risco de perderem o posto de religião oficial. A propagação do medo no corpo social foi o principal elemento de um processo que que tinha como objetivo destripar da sociedade grupos que, para a Igreja, possuíam comportamentos que eram associados a heresias.

Autora: Leydiane Damascena Nóbrega, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN. 
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As ferramentas modernas e os novos meios de difusão dos medos escatológicos


É comum encontrarmos na historiografia medieval relatos sobre a chegada do Anticristo e o medo do fim do mundo. Esses dois acontecimentos parecem a primeira vista serem exclusivos do período medieval, mas ao analisarmos melhor vemos uma intensa propagação desses medos a partir de meados do século XIV. A resposta para essa forte divulgação está nos meios de difusão que passaram a ser usados no período Moderno. Para entender melhor a situação primeiro precisamos situar a conjuntura europeia nesse momento: um dos aliados que desempenharam uma intensa corrente de propaganda dos medos escatológicos foi a prensa, a gravura e o teatro religioso. Graças ao advento da prensa a comercialização de livros impressos pode ser viabilizada e os escritos puderam chegar a um número cada vez maior de pessoas. Peter Burke [1] informa que em 1500 haviam mais de 250 centros com gráficas montadas e cerca de 40 mil edições impressas, contabilizando cerca de 20 milhões de exemplares em um período em que a população da Europa era estimada em pouco mais de 80 milhões [2]. Consequentemente a alfabetização foi um fator decorrente das crescentes facilidades educacionais difundidas na época. Livros e outros materiais impressos podiam ser adquiridos em feiras ou com vendedores ambulantes a preços bastante acessíveis, além disso possuíam uma linguagem bastante simples que era compreensível até para aqueles que liam com dificuldades

Em suma, o cenário dos medos escatológicos no ano Mil foi radicalmente ampliado quatrocentos anos mais tarde à medida que a população letrada foi ampliada. Jean Delumeau [3] menciona que as prensas difundiram em numerosos exemplares e em diversas línguas livros como Vida do Anticristo (la vie de l'Antéchrist), autoria desconhecida, as Revelações de santa Brígida da Suécia, que dentre outras coisas prenunciava o fim do mundo e a necessidade da redenção do homem à Deus, a Lenda Áurea, assim como as previsões pessimistas dos astrólogos. Dentre os livros que os mascates, vendedores ambulantes, vendiam em maior quantidade estavam as previsões astrológicas. O Prognosticon de autoria do eremita alsaciano Jean de Lichtenberger foi impresso aproximadamente dez vezes na Alemanha entre o século XV e XVI. As previsões estavam baseadas em uma conjunção astrológica entre Saturno e Júpiter e um eclipse do sol que traria guerras, ruínas e desgraças que culminariam no fim do mundo. No século XVI em uma nova impressão da versão alemã Martinho Lutero escreveu o prefácio para o Prognosticon. Lutero era um fiel seguidor da ideia de proximidade do Juízo Final. A prensa veiculou tanto suas obras que talvez ele seja um dos personagens principais que contribuíram na difusão dos medos escatológicos. No livro Conversas à Mesa, feito a partir de anotações dos alunos de Lutero, é possível entrever o comportamento e a angústia do professor diante dos presságios do fim do mundo.
"[...] Um outro dia, o dr. Martinho disse muitas coisas referentes ao Juízo Final e ao fim do mundo, pois há seis meses vinha sendo atormentado por sonhos horríveis e apavorantes a respeito do último dia. É possível, disse ele, que não esteja distante, e as Escrituras estão aí para no-lo fazer crer. O que resta de tempo ao mundo, se o compararmos aos tempos que já transcorreram, não é mais largo que a mão; é uma pequena maçã, a única que se prende ainda debilmente à árvore e que está prestes a cair. [...] Então mestre Leonard disse: " Os matemáticos e os astrólogos pretendem que, no quadragésimo ano [1540], as conjunções dos planetas anunciam grandes acontecimentos"."Sim", respondeu mestre Martinho, "isso pode durar alguns anos, mas nossos descendentes verão a realização das Escrituras, e talvez sejamos nós as suas testemunhas." [4]
Lutero, assim como seus contemporâneos, era fortemente influenciado pelo tipo de literatura que circulava entre os vendedores de livros da época. Até mesmo a Bíblia sofrera tal tipo de influência. A Bíblia de Wittenberg do século XVI continha uma cópia levemente alterada do Apocalipse gravado por Albrecht Dürer [5] no século XV.




Ilustração da Bíblia de Wittenberg. Cena do Apocalipse gravada por Dürer (1498).

A partir do século XVI inúmeras representações do Apocalipse foram publicadas na Alemanha, porém todas copiavam de certa forma o trabalho de Dürer. Além dessas formas de divulgação, o medo do fim do mundo também encontrava uma forma de se perpetuar através do teatro religioso. As representações que difundiam o tema do medo do Anticristo e do Juízo Final costumavam atrair multidões consideráveis e reuniam um grande número de atores. Delumeau menciona a farta documentação que cita as encenações do Juízo Final em Munique em 1518 e em Lucerna, 1549. A Tragédia do Juízo Final, drama escatológico redigido por Hans Sachs [6] no século XVI atraiu grande público e foi ainda por muito tempo encenada.

Através das maneiras mais diversas, como gravuras, livros (propiciado pela imprensa), teatro religioso e por toda espécie de imagem, a sociedade da era moderna via-se cercada pelas ameaças apocalípticas de forma mais intensa que a historiografia medieval relata no ano Mil. As ferramentas modernas impulsionaram a ideia da vinda do Anticristo e a chegada do Juízo Final, ao mesmo tempo em que se vivia tantas descobertas e conquistas, o que já é por si só um paradoxo. A sociedade do período Moderno foi marcada ao mesmo tempo pelo progresso, e pela mentalidade fixa na ideia do declínio, do pecado e do Juízo.


Autora: Andressa Freitas dos Santos, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.
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[4] LUTERO, Martinho. Conversas à Mesa. Viçosa: Editora Ultimato, 2006.


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