sexta-feira, 2 de setembro de 2016

As ferramentas modernas e os novos meios de difusão dos medos escatológicos


É comum encontrarmos na historiografia medieval relatos sobre a chegada do Anticristo e o medo do fim do mundo. Esses dois acontecimentos parecem a primeira vista serem exclusivos do período medieval, mas ao analisarmos melhor vemos uma intensa propagação desses medos a partir de meados do século XIV. A resposta para essa forte divulgação está nos meios de difusão que passaram a ser usados no período Moderno. Para entender melhor a situação primeiro precisamos situar a conjuntura europeia nesse momento: um dos aliados que desempenharam uma intensa corrente de propaganda dos medos escatológicos foi a prensa, a gravura e o teatro religioso. Graças ao advento da prensa a comercialização de livros impressos pode ser viabilizada e os escritos puderam chegar a um número cada vez maior de pessoas. Peter Burke [1] informa que em 1500 haviam mais de 250 centros com gráficas montadas e cerca de 40 mil edições impressas, contabilizando cerca de 20 milhões de exemplares em um período em que a população da Europa era estimada em pouco mais de 80 milhões [2]. Consequentemente a alfabetização foi um fator decorrente das crescentes facilidades educacionais difundidas na época. Livros e outros materiais impressos podiam ser adquiridos em feiras ou com vendedores ambulantes a preços bastante acessíveis, além disso possuíam uma linguagem bastante simples que era compreensível até para aqueles que liam com dificuldades

Em suma, o cenário dos medos escatológicos no ano Mil foi radicalmente ampliado quatrocentos anos mais tarde à medida que a população letrada foi ampliada. Jean Delumeau [3] menciona que as prensas difundiram em numerosos exemplares e em diversas línguas livros como Vida do Anticristo (la vie de l'Antéchrist), autoria desconhecida, as Revelações de santa Brígida da Suécia, que dentre outras coisas prenunciava o fim do mundo e a necessidade da redenção do homem à Deus, a Lenda Áurea, assim como as previsões pessimistas dos astrólogos. Dentre os livros que os mascates, vendedores ambulantes, vendiam em maior quantidade estavam as previsões astrológicas. O Prognosticon de autoria do eremita alsaciano Jean de Lichtenberger foi impresso aproximadamente dez vezes na Alemanha entre o século XV e XVI. As previsões estavam baseadas em uma conjunção astrológica entre Saturno e Júpiter e um eclipse do sol que traria guerras, ruínas e desgraças que culminariam no fim do mundo. No século XVI em uma nova impressão da versão alemã Martinho Lutero escreveu o prefácio para o Prognosticon. Lutero era um fiel seguidor da ideia de proximidade do Juízo Final. A prensa veiculou tanto suas obras que talvez ele seja um dos personagens principais que contribuíram na difusão dos medos escatológicos. No livro Conversas à Mesa, feito a partir de anotações dos alunos de Lutero, é possível entrever o comportamento e a angústia do professor diante dos presságios do fim do mundo.
"[...] Um outro dia, o dr. Martinho disse muitas coisas referentes ao Juízo Final e ao fim do mundo, pois há seis meses vinha sendo atormentado por sonhos horríveis e apavorantes a respeito do último dia. É possível, disse ele, que não esteja distante, e as Escrituras estão aí para no-lo fazer crer. O que resta de tempo ao mundo, se o compararmos aos tempos que já transcorreram, não é mais largo que a mão; é uma pequena maçã, a única que se prende ainda debilmente à árvore e que está prestes a cair. [...] Então mestre Leonard disse: " Os matemáticos e os astrólogos pretendem que, no quadragésimo ano [1540], as conjunções dos planetas anunciam grandes acontecimentos"."Sim", respondeu mestre Martinho, "isso pode durar alguns anos, mas nossos descendentes verão a realização das Escrituras, e talvez sejamos nós as suas testemunhas." [4]
Lutero, assim como seus contemporâneos, era fortemente influenciado pelo tipo de literatura que circulava entre os vendedores de livros da época. Até mesmo a Bíblia sofrera tal tipo de influência. A Bíblia de Wittenberg do século XVI continha uma cópia levemente alterada do Apocalipse gravado por Albrecht Dürer [5] no século XV.




Ilustração da Bíblia de Wittenberg. Cena do Apocalipse gravada por Dürer (1498).

A partir do século XVI inúmeras representações do Apocalipse foram publicadas na Alemanha, porém todas copiavam de certa forma o trabalho de Dürer. Além dessas formas de divulgação, o medo do fim do mundo também encontrava uma forma de se perpetuar através do teatro religioso. As representações que difundiam o tema do medo do Anticristo e do Juízo Final costumavam atrair multidões consideráveis e reuniam um grande número de atores. Delumeau menciona a farta documentação que cita as encenações do Juízo Final em Munique em 1518 e em Lucerna, 1549. A Tragédia do Juízo Final, drama escatológico redigido por Hans Sachs [6] no século XVI atraiu grande público e foi ainda por muito tempo encenada.

Através das maneiras mais diversas, como gravuras, livros (propiciado pela imprensa), teatro religioso e por toda espécie de imagem, a sociedade da era moderna via-se cercada pelas ameaças apocalípticas de forma mais intensa que a historiografia medieval relata no ano Mil. As ferramentas modernas impulsionaram a ideia da vinda do Anticristo e a chegada do Juízo Final, ao mesmo tempo em que se vivia tantas descobertas e conquistas, o que já é por si só um paradoxo. A sociedade do período Moderno foi marcada ao mesmo tempo pelo progresso, e pela mentalidade fixa na ideia do declínio, do pecado e do Juízo.


Autora: Andressa Freitas dos Santos, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.
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[4] LUTERO, Martinho. Conversas à Mesa. Viçosa: Editora Ultimato, 2006.


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