segunda-feira, 2 de maio de 2016

Um dos agentes de Satã: a mulher


No começo da Idade Moderna, na Europa Ocidental, os agentes de Satã eram vários: os idólatras e muçulmanos, os judeus e as mulheres. Estas foram identificadas como diligentes servidoras de Satã não somente pelos eclesiásticos, mas também pelos juízes leigos. E isso é explicado pelo fato de que, em certo período, tanto a arte, quanto a literatura, a vida de corte e a teologia protestante aparentavam induzir a uma certa promoção da mulher. Com o intuito e quebrar essa valorização, foi urdida com uma perversidade peculiar a ideia do concubinato da mulher e Satã, sobretudo pela imprensa.

“A atitude masculina em relação ao “segundo sexo” sempre foi contraditória, oscilando da atração à repulsão, da admiração à hostilidade”. [1] O judaísmo bíblico e o classicismo grego assim o atesta. De deusa da fecundidade, imagem da natureza profícua e abundante, à Atenas – deusa da divina sabedoria – e à Virgem Maria, guarnecida de toda graça e bondade supremas, a imagem feminina foi cambiando ao longo do tempo. Serviu, inclusive, como fonte de inspiração a poetas e santos.

As origens do medo da mulher no homem são múltiplas e complexas. Delumeau não partilha da opinião de Freud, para o qual o medo derivava do temor da castração. “Essa inveja do pênis não é sem dúvida senão um conceito sem fundamento introduzido sub-repticiamente na teoria psicanalítica por um tenaz apego à superioridade masculina”.[2] Em contrapartida, Freud observava, por pressuposto, que na sexualidade feminina tudo é eivado de obscuridade e, por conseguinte, assaz difícil de analisar de maneira analítica. Semelhante posicionamento é compartilhado por Simone de Beauvoir [3]: “o sexo feminino é misterioso para a própria mulher, oculto, atormentado [...]. É em grande parte porque a mulher não se reconhece nele que não reconhece como seus os seus desejos”.[4] Um dos maiores mistérios para o homem é a maternidade. É por ela que a mulher é ligada intrinsecamente à natureza e vista como o “relicário do enigmático”. Deste modo, por estar em perfeita conexão com a natureza, a mulher sempre foi imbuída, nas sociedades tradicionais, do poder não só de vaticinar, mas também de curar ou de maleficiar por meio de secretas mezinhas. Enigma da maternidade, mas ainda mais enigma da fisiologia feminina atada às lunações. O sexo masculino é atraído pela mulher e simultaneamente repelido pelos seus fluxos menstruais, seus odores, suas secreções e seu líquido amniótico. 

Não é por acaso que a ambiguidade representada pelo ser feminino – o ser que engendra a vida e anuncia a morte – fez com a mulher fosse depositária natural dos cuidados dos mortos e dos rituais funerários. É nesse âmbito que inserem as variegadas representações de monstros fêmeas. As mães ogras, que devoram seus filhos recém-nascidos, faz parte desse imaginário, tão antigo quanto o próprio canibalismo. São sustentadas por esse medo visceral dessa personagem medonha as acusações levantadas nos séculos XV-XVII contra tantas feiticeiras que supostamente teriam supliciado e assassinado tantas crianças para presenteá-las a Satã.

“Mal magnífico, prazer funesto, venenosa e enganador, a mulher foi acusada pelo outro sexo de ter introduzido na terra o pecado, a desgraça e a morte. Pandora[5] grega ou Eva judaica, ela cometeu a falta original ao abrir a urna que continha todos os males ou ao comer o fruto proibido. O homem procurou um responsável para o sofrimento, para o malogro, para o desparecimento do paraíso terrestre e encontrou a mulher. Como não temer um ser que nunca é tão perigoso como quando sorri? A caverna sexual tornou-se a fossa viscosa do inferno”.[6]

Em suma, o temor da mulher não é uma criação dos ascetas cristãos, mas é certo que, desde muito cedo, eles se apropriaram desse imaginário da mulher misteriosa, fonte de todo pecado e perdição e o utilizaram para servir aos seus propósitos mais antifemininos e radicais, sobretudos nos anos de 1600 a 1800. A mulher foi cada vez mais diabolizada e, para isso, exemplificando, serviram as constantes ladainhas antifeministas recitadas pelos pregadores.


                                                          Adão e Eva por Mabuse (século XVI) [7]

Madonna e o menino. [8]

Autora: Luciana Bezerra de Medeiros, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.




[1] DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Cia das letras, 1989, p. 310.


[2] Ibidem, p. 311.

[3] Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir, foi uma renomada filósofa existencialista francesa. Dentre as suas obras, a que mais se destaca é “O segundo sexo”, na qual ela analisa a opressão feminina. Destaca-se como uma das mais atuantes feministas da contemporaneidade. Para saber mais, sugiro a leitura do artigo “Afinal, o que é uma mulher? Simone de Beauvoir e "a questão do sujeito" na teoria crítica feminista”, de autoria de Ingrid Cyfer, professora de Teoria Política do Departamento de Ciência Sociais da UNIFESP, disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452015000100003.




[4] BEAUVOIR, Simone de. apud DELUMEAU, Jean. op. cit., p. 311.

[5] Para saber mais acerca do mito de Pandora, ler: SCHWAB, Gustav. As mais belas histórias da Antiguidade clássica: os mitos da Grécia e de Roma. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.



[6] Ibidem, p. 314.

[7] Imagem disponível aqui.

[8] Pintura de Masaccio, artista do período do “Quatroccento” do Renascimento italiano (1401-1428). Imagem disponível aqui.

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