sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O segredo sob a perspectiva do medo: a maçonaria

É no contexto do Antigo Regime que a Maçonaria se estabelece como uma sociedade secreta que resiste ao sistema vigente do absolutismo. Para entendermos melhor a estrutura da maçonaria e a importância do segredo primeiro devemos nos remeter ao seu contexto de origem e o motivo do silêncio do que acontece dentro do seu seio. As lojas Maçônicas originaram-se por volta do século XVII na Inglaterra e Escócia. No século XVIII houve uma considerável expansão da maçonaria culminando em uma sociedade em que homens estavam interconectados pelo entendimento comum de valores como liberdade, igualdade e fraternidade. É evidente que esses valores representam, também, a perspectiva do Século das Luzes. Sob a ótica do Antigo Regime esses valores parecem romper a estrutura homem – súdito. Reinhart Koselleck [1] argumenta que “o homem deve realizar-se politicamente como homem” [2], e que isso por si só simboliza uma desagregação do Estado Absolutista. Koselleck ainda discute que a estrutura maçônica por si só representava uma sociedade que ia contra aos princípios do sistema absolutista. A sociedade maçônica representava aquilo que o Estado deveria ser, o reflexo do microcosmo maçônico esperava ser refletido no macrocosmo da sociedade. O elemento conector dessa sociedade residia justamente no fato de que a política não era partilhada por todos, nem mesmo pela classe burguesa, que havia ascendido economicamente. A liberdade ainda residia nas mãos do monarca e da aristocracia.

A maçonaria estava reunida em torno do desejo de uma maior participação política em um Estado que não aceitava a opinião pública, embora fosse uma sociedade em que se aceitava a exigência do poder soberano, mas que ao mesmo tempo lutava para contornar a força monárquica, todo o processo era realizado de forma silenciosa. Os maçons formaram um tipo de civilidade que se intensificou durante o absolutismo europeu. Constituía-se, portanto, numa nova configuração de organização achada pela nova elite - excluída da política-, aonde tinham liberdade para debater em espaços específicos como clubes, cafés, bibliotecas, bolsa de valores com total descrição a respeito de projetos políticos e sobre os assuntos internos da organização. O juramento que faziam para guardar o segredo o tornava fechado e impenetrável. Em torno dessa estrutura o segredo, o silêncio e a discrição eram ferramentas fundamentais para essa instituição sobreviver. O teor do segredo mudava conforme os diferentes sistemas, mas preservava a mesma função social, explica Koselleck. O segredo representava liberdade em relação ao domínio do Estado, essa era a essência das lojas maçônicas. A preservação desse segredo implicava cada vez mais em um grau de liberdade maior, que era atribuído à medida que se alcançava uma hierarquia mais alta dentro da maçonaria. A quebra desse segredo geraria a perda da liberdade, esse era o grande medo dentro dos círculos maçônicos. Essa liberdade só podia se desenvolver no Estado Absolutista apenas se permanecesse dentro das estruturas do foro interior secreto. Dentro do segredo os maçons encontraram a garantia de independência do Estado.


Goose and Gridiron, ilustração da primeira loja maçônica em Londres. Autoria desconhecida.

Koselleck demonstra que o segredo maçônico seria a segurança de proteção da nova sociedade, por este motivo a liberdade privada tornava a ser o segredo da liberdade. A unidade entre os irmãos também seria uma das atribuições do segredo. Quem possuía mais conhecimento sobre os segredos ou informações das organizações secretas, consequentemente detinha mais poder. O segredo guardava a chave de uma vida melhor. Após a iniciação o segredo criava uma comunidade, em que esse mesmo arcanum (segredo) constituía o elemento principal e basilar da fraternidade.

Quando estamos reunidos, somos todos irmãos, e o resto do Universo é estranho: o Príncipe e o Súdito, o Fidalgo e o Artesão, o Rico e o Pobre ali se distinguem; nada os distingue, nada os separa. O segredo separava os irmãos e o resto do mundo exterior. Assim, pela rejeição de todas as ordens sociais, religiosas ou estatais vigentes, desenvolveu-se uma nova elite que se concebia como humanidade. [2]

Os iniciados mantinham entre si uma forte coerência interna cujo elo conector era o segredo. Por outro lado esse aspecto ocasionava uma desconfiança e cautela com todo aquele que não fosse iniciado nos segredos da maçonaria. A traição do segredo dentro da maçonaria ocasionaria a dissolução do seu mundo interno, dessa forma destruindo toda a unidade da Ordem. O controle do segredo também serviu como forma de dominação dentro da maçonaria ao se instituir que um membro da fraternidade, antes de ser iniciado ou na própria mudança de grau, deveria confessar todos os seus segredos pessoais, fazendo uma espécie de relato sigiloso sobre si mesmo e entregar isso aos membros da hierarquia mais alta. 

Para poder subir  a Illuminatus major era preciso responder, como na admissão, a um enorme questionário que em suas 32 páginas impressas continha centenas de perguntas, destinadas a decifrar o espírito, o caráter e a condição socioeconômica do pretendente. [2]

Essa espécie de controle das informações dos membros da maçonaria faez com que outros membros detivessem informações que os outros não possuiam, implicando em uma dominação através do medo da informação ser espalhada, caso o iniciado de grau inferior infringisse alguma regra da Ordem. O temor, nesse caso específico, era de natureza moral, uma das coisas mais prezadas e cultivadas dentro da maçonaria. Um irmão jamais gostaria de ver sua imagem suja perante os outros membros, por isso deveria manter uma conduta que fosse condizente com as premissas da maçonaria. 

A nova sociedade era vista como uma ameaça ao absolutismo e para a Igreja que impulsionou atitudes como o decreto de Luis XV, em 1737, que censurava funcionários reais e administradores públicos de fazer parte das Lojas Maçônicas. Da mesma forma que o decreto do Papa Clemente XII, em 1740, proibia os católicos de possuírem vínculo com à Maçonaria. Segundo Koselleck, é no seio de uma das instituições típicas da esfera pública na França, as lojas maçônicas, que essa elite emergente, em proximidade com as ideologias iluministas, apoderar-se-á de autoconsciência em sua crítica contra o Estado e a Igreja. A maçonaria vivia conforme uma conduta cercada pela mística do segredo, qualidade que envolvia tanto a apreciação e também o medo, pois a quebra implicaria na destruição do lugar de refúgio dos maçons, preservar o segredo é a mesma coisa que conservar sua liberdade.


Autoras: Andressa Freitas dos Santos e Leydiande Damascena Nóbrega, estudantes da graduação de História (Licenciatura) da UFRN. 



[1] Reinhart Koselleck é um historiador alemão. Seu principal foco de pesquisa foi a chamada "história dos conceitos" 

[2] KOSSELECK, Reinhart. Crítica e Crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: EDUERJ: Contraponto, 1999. 

 

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