O tema “o medo” é de origem recente na historiografia. E a que se deve essa jovialidade na apreensão do medo como objeto historiográfico? Em “História do Medo no Ocidente”, o autor Jean Delumeau [1] defende a ideia que tal silêncio é oriundo “de uma confusão mental amplamente difundida entre medo e covardia, coragem e temeridade” [2]. Na análise do “medo”, o recorte espaço/temporal adotado pelo historiador é o Ocidente no interstício de 1348 a 1800 e é nele que o autor visa a empreender a sua aventura intelectual excitante, como ele mesmo a denomina.
Com uma narrativa fluida, como que nos convidando a empreender essa caminhada estimulante, Delumeau menciona que, no momento em que os valores burgueses começam a se desenvolver e a criar raízes na sociedade ocidental – por volta dos séculos XIV-XVI – são reforçados certos traços que exaltam a bravura, o destemor e estes transparecem, principalmente, em uma literatura épica e narrativa. Os heróis dos contos são sempre possuidores de um caráter intimorato. A sua honra se fundamenta no enfrentamento de inúmeros perigos a fim de possuir a glória e o amor incondicional de sua dama. Assim o prova a literatura do amor cortês, na qual a intrepidez, a valentia e a coragem são elementos preponderantes. Tais qualidades também aparecem na literatura das crônicas em que os feitos heroicos da nobreza e dos príncipes são constantemente ressaltados e aclamados. Vide os exemplos de João I, duque da Borgonha, cuja alcunha é significativa de sua bravura: João sem medo e de Carlos I da Borgonha, também conhecido como Carlos, o Temerário ou, o Terrível.
João sem Medo [3]
Carlos, o Temerário [4]
O contraponto ao
paradigma do cavaleiro destemido se constitui como a antítese da massa
timorata, covarde. De Virgílio a Montaigne, essa característica é muito
evidenciada: “Montaigne atribui aos
humildes, como uma caraterística evidente, a propensão ao pavor mesmo quando
são soldados: percebem couraceiros onde há apenas um rebanho de ovelhas; tomam
caniços por lanceiros. Associando, além disso, covardia e crueldade, ele
assegura que uma e outra são mais especialmente próprias dessa “canalha de
vulgo””[5].
Romance e teatro corroboraram o antagonismo entre os dois universos,
simultaneamente sociais e morais, a saber: o da valentia – privativo – dos
nobres, e o do medo – coletivo – dos pobres.
Esse clichê do medo peculiar dos humildes é diagnosticado
também no período renascentista. Nos escritos de Symphorien Champier de 1510 –
o qual, apesar de ser médico e humanista era um adulador da nobreza –
transparece esse estereótipo: “ “O senhor
deve tirar prazer e delícia das coisas em que seus homens têm sofrimento e
trabalho”. Seu papel é o de “manter terra, pois pelo pavor que os homens do
povo têm dos cavaleiros eles trabalham e cultivam as terras por pavor e medo de
serem destruídos” [6].
Em suma, em todos os paradigmas evidenciados nos escritos
dos períodos acima citados vislumbram-se os porquês da reticência acerca da
função e da relevância do medo na história humana. Da Antiguidade até um
período recente, mas destacadamente na Renascença, o teor do discurso literário
era engrandecer a intrepidez dos heróis que conduziam a sociedade,
justificando, destarte, o poder de que estavam munidos. Contrariamente, o medo
era a fração que cabia aos vilões e, por conseguinte, a razão de sua sujeição.
A partir da Revolução Francesa, os plebeus lograram, pela força, o direito à
bravura. Embora houvesse um novo discurso ideológico, este utilizou a mesma
retórica do antigo, ou seja, passou a enaltecer o destemor da massa,
dissimulando o medo.
Autora: Luciana Bezerra de Medeiros, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.
___________
[1] Jean Delumeau é um renomado historiador francês, conhecido por sua contribuição no campo da História das Mentalidades. Nas suas obras destacam-se temas como o medo, o pecado e a esperança da felicidade. Para saber mais, acesse aqui.
[2] DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Cia das letras, 1989, p. 13.
[3] Retrato de João Sem Medo (1371-1419), segundo Duque de Borgonha da Casa dos Valois, de autor anônimo. Suas mãos estão descansando sobre uma mesa de orações, a qual é guarnecida por uma tapeçaria com as armas dos Valois, Borgonha (herdada do seu pai, Filipe, o Audaz) e O Leão Flamengo (herdada de sua mãe, Margarida de Flandres). Trecho traduzido a partir de excerto encontrado aqui.
[4] Carlos, o Temerário, retratado por Peter Paul Rubens (01/01/1618), pintor
flamengo do estilo barroco. Retrato obtido aqui.
[5] DELUMEAU, op. cit., p. 14.
[6] DELUMEAU, op. cit., p. 15.
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