Na primeira parte desse post discorremos inicialmente sobre o universo hostil do oceano que o homem moderno teve de enfrentar com mais frequência após a descoberta da América, em 1492. Pensamos em propor um ângulo de análise baseado em dois eixos centrais que nos permitirão perscrutar mais profundamente o imaginário do homem moderno. A partir da literatura de ficção, ou texto poético, e relatos de viagens, iremos explorar os estados psicológicos suscitados pelas viagens marítimas. Jean Delumeau, no livro História do Medo no Ocidente, nos chama a atenção para o elemento das tempestades que figurava com bastante frequência desde a Antiguidade até o período Moderno. E não é apenas no discurso poético que ele aparece, mas também em muitos relatos de viajantes. Pietro Casola, um cônego italiano do século XV, em uma de suas viagens para a Terra Santa, Jerusalém, relata o cotidiano a bordo do navio durante o trajeto que conduziria os peregrinos ao seu destino final. O relato da peregrinação escrito em 1494 descreve as inúmeras tempestades que os tripulantes do navio tiveram que enfrentar. Em dado momento da situação o Cônego Casola escreve:
O discurso poético e literário, amplamente influenciado pelo imaginário da época, fruto dos relatos dos navegantes, também apresentam episódios similares, em que as tempestades e a instabilidade do mar, são elementos de natureza caótica que trazem características tenebrosas, que conferem um perigo de morte iminente. Esse aspecto é percebido em um trecho da obra Lusíadas, publicado em 1572, escrito por Luís de Camões, um dos poetas mais importantes da literatura portuguesa. No excerto Vasco da Gama refere-se à viagem e destaca o caráter mortal que a envolvia:Na noite seguinte o mar estava tão agitado, que a esperança de viver foi abandonada por todos, repito, por todos. Fomos levados para fora do nosso curso, e a galera foi lançada ao mar aberto rapidamente. Uma das velas de apoio, chamada de cochina, foi içada, coisa que ainda não havia sido feita em nenhum momento durante a viagem. A tempestade ficou tão violenta que todos os homens fugiram do convés, e não adiantava naquela hora dizer "este é o meu lugar", porque naquele momento todas as coisas nos eram comuns. A morte nos perseguia. Durante a noite ondas pesadas atingiram o navio, que cobriram o castelo [1] em fezes e pizolo (?), e cobriu toda a galera com água; nenhuma pessoa estava isenta, desde o menor até o maior. A água veio do céu e do mar; por todos os lados. [2]
Depois de aparelhados desta sorteA partir do trecho destacado é notório que a superação de certos medos era necessário quando havia determinado interesse em vista. Delumeau menciona o fato de que os descobridores da Renascença tiveram "sangue-frio" o suficiente para lutar incessantemente contra o temor das tripulações. O autor ainda acrescenta que as adversidades, tais como doenças, avarias nos navios, índice de mortalidade aumentada, instabilidade do clima em alto mar, constituíam obstáculos que posteriormente eram recompensados no progresso do ramo marítimo. A construção naval, a cartografia, aperfeiçoamento dos cálculos de latitude e longitude foram a consequência do árduo período que os homens passavam confinados por vários meses em um navio.
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhamos a alma para a morte
Que sempre aos nautas ante os olhos anda. [3]
François Rabelais, consagrado escritor francês do século XVI, ao escrever a sua pentalogia de romances Gargantua e Pântagruel, (1532 - 1564) aborda a tipologia do medo do mar nos seguintes trechos:
Ó como três e quatro vezes felizes são aqueles que plantam couves! [...] Ó tão poucos são aqueles a quem Júpiter cedeu o destino de plantador de couves! Eles tem sempre o pé no chão! Quem quer que plante couves é por meu decreto declarado bem-aventurado [...] [...] O filósofo Pirro, estando no mesmo perigo, e vendo um porco perto da costa comer um pouco de aveia no chão, declarou que era um ser pleno de felicidade por dois aspectos; em primeiro lugar porque tinha muita aveia, e, além disso, estava em terra. Ah! mansão deífica e senhoral, não há como a terra firme! [4].Jean Delumeau ao comentar sobre essa passagem do romance Gargantua e Pântagruel menciona o caráter de covardia do personagem Panurgo, e apresenta-nos o total desespero que envolvia os tripulantes. Essa espécie de comportamento era identificada como coletiva, e se encontra facilmente nos relatos de viajantes, além de ser facilmente identificada na literatura da época. Ele também percebe outro elemento bastante comum aos relatos da época, destacando a nostalgia da terra, como está explícita na fala de Panurgo ao falar que preferia estar em terra, e o apelo desordenado a santos protetores.
Autoria: Andressa Freitas Dos Santo, estudante da graduação de História (licenciatura) da UFRN.
[1] Castelo, descrito no relato do Cônego Pietro Casola, refere-se a uma parte do navio localizada na parte alta da popa da galera. Aqui há um texto bem interessante sobre os navios que mais foram usados durante o fim da Idade Média, e o inicio da Idade Moderna.
[2] Tradução livre do trecho em que Pietro Casola descreve a situação do navio durante a tempestade. O manuscrito na íntegra, em inglês, pode ser consultado neste site.
[3] Baixe a obra na íntegra aqui.
[4] Tradução livre. A obra na íntegra, em inglês, pode ser baixada neste site.

