domingo, 24 de abril de 2016

O encontro do homem, do oceano e do desconhecido - PARTE 2

Na primeira parte desse post discorremos inicialmente sobre o universo hostil do oceano que o homem moderno teve de enfrentar com mais frequência após a descoberta da América, em 1492. Pensamos em propor um ângulo de análise baseado em dois eixos centrais que nos permitirão perscrutar mais profundamente o imaginário do homem moderno. A partir da literatura de ficção, ou texto poético, e relatos de viagens, iremos explorar os estados psicológicos suscitados pelas viagens marítimas. Jean Delumeau, no livro História do Medo no Ocidente, nos chama a atenção para o elemento das tempestades que figurava com bastante frequência desde a Antiguidade até o período Moderno. E não é apenas no discurso poético que ele aparece, mas também em muitos relatos de viajantes. Pietro Casola, um cônego italiano do século XV, em uma de suas viagens para a Terra Santa, Jerusalém, relata o cotidiano a bordo do navio durante o trajeto que conduziria os peregrinos ao seu destino final. O relato da peregrinação escrito em 1494 descreve as inúmeras tempestades que os tripulantes do navio tiveram que enfrentar. Em dado momento da situação o Cônego Casola escreve:
Na noite seguinte o mar estava tão agitado, que a esperança de viver foi abandonada por todos, repito, por todos. Fomos levados para fora do nosso curso, e a galera foi lançada ao mar aberto rapidamente. Uma das velas de apoio, chamada de cochina, foi içada, coisa que ainda não havia sido feita em nenhum momento durante a viagem. A tempestade ficou tão violenta que todos os homens fugiram do convés, e não adiantava naquela hora dizer "este é o meu lugar", porque naquele momento todas as coisas nos eram comuns. A morte nos perseguia. Durante a noite ondas pesadas atingiram o navio, que cobriram o castelo [1] em fezes e pizolo (?), e cobriu toda a galera com água; nenhuma pessoa estava isenta, desde o menor até o maior. A água veio do céu e do mar; por todos os lados. [2]
O discurso poético e literário, amplamente influenciado pelo imaginário da época, fruto dos relatos dos navegantes, também apresentam episódios similares, em que as tempestades e a instabilidade do mar, são elementos de natureza caótica que trazem características tenebrosas, que conferem um perigo de morte iminente. Esse aspecto é percebido em um trecho da obra Lusíadas, publicado em 1572, escrito por Luís de Camões, um dos poetas mais importantes da literatura portuguesa. No excerto Vasco da Gama refere-se à viagem e destaca o caráter mortal que a envolvia:
Depois de aparelhados desta sorte
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhamos a alma para a morte
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
 [3]
A partir do trecho destacado é notório que a superação de certos medos era necessário quando havia determinado interesse em vista. Delumeau menciona o fato de que os descobridores da Renascença tiveram "sangue-frio" o suficiente para lutar incessantemente contra o temor das tripulações. O autor ainda acrescenta que as adversidades, tais como doenças, avarias nos navios, índice de mortalidade aumentada, instabilidade do clima em alto mar, constituíam obstáculos que posteriormente eram recompensados no progresso do ramo marítimo. A construção naval, a cartografia, aperfeiçoamento dos cálculos de latitude e longitude foram a consequência do árduo período que os homens passavam confinados por vários meses em um navio.  
François Rabelais, consagrado escritor francês do século XVI, ao escrever a sua pentalogia de romances Gargantua e Pântagruel, (1532 - 1564) aborda a tipologia do medo do mar nos seguintes trechos:  
Ó como três e quatro vezes felizes são aqueles que plantam couves! [...] Ó tão poucos são aqueles a quem Júpiter cedeu o destino de plantador de couves! Eles tem sempre o pé no chão! Quem quer que plante couves é por meu decreto declarado bem-aventurado [...]  [...] O filósofo Pirro, estando no mesmo perigo, e vendo um porco perto da costa comer um pouco de aveia no chão, declarou que era um ser pleno de felicidade por dois aspectos; em primeiro lugar porque tinha muita aveia, e, além disso, estava em terra. Ah! mansão deífica e senhoral, não há como a terra firme! [4].
Jean Delumeau ao comentar sobre essa passagem do romance Gargantua e Pântagruel menciona o caráter de covardia do personagem Panurgo, e apresenta-nos o total desespero que envolvia os tripulantes. Essa espécie de comportamento era identificada como coletiva, e se encontra facilmente nos relatos de viajantes, além de ser facilmente identificada na literatura da época. Ele também percebe outro elemento bastante comum aos relatos da época, destacando a nostalgia da terra, como está explícita na fala de Panurgo ao falar que preferia estar em terra, e o apelo desordenado a santos protetores.

Autoria: Andressa Freitas Dos Santo, estudante da graduação de História (licenciatura) da UFRN.
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[1] Castelo, descrito no relato do Cônego Pietro Casola, refere-se a uma parte do navio localizada na parte alta da popa da galera. Aqui há um texto bem interessante sobre os navios que mais foram usados durante o fim da Idade Média, e o inicio da Idade Moderna.

[2] Tradução livre do trecho em que Pietro Casola descreve a situação do navio durante a tempestade. O manuscrito na íntegra, em inglês, pode ser consultado neste site.

[3] Baixe a obra na íntegra aqui.

[4] Tradução livre. A obra na íntegra, em inglês, pode ser baixada neste site.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O medo das epidemias - Uma visão de Georges Duby

       O historiador medievalista francês Georges Duby, apresenta-nos em seu livro "Ano 1000, Ano 2000 Na Pista dos nossos medos" um quadro do medo que permeou a sociedade medieval, e que continuou a refletir nos séculos seguintes. No post de hoje faremos uma breve análise, sob a ótica do Duby, sobre a visão das epidemias, que não só perduraram durante a temporalidade medieval, mas que continuaram nos séculos que compreendem a Idade Moderna. Segundo Duby, as comunidades judaicas tinham a fama de sugar o sangue do povo, pois eram bons comerciantes e tinham a prática de cobrar juros altíssimos por seus empréstimos. Assim, na época da grande peste, no século XIV, o judeu foi tratado como o responsável pela desgraça. Dizia-se que eles tinham envenenados os poços, e consequentemente ao ingeri-la os cristãos ficavam doentes.


Representação de um massacre de judeus em 1349. Fonte: Antiquitates Flandriae. 

       A Peste Negra era transmitida pelos parasitas, principalmente as pulgas do rato preto, rattus rattus. Ele veio da Ásia, pela rota da seda. Essa epidemia, ou melhor dizendo, catástrofe, contribuiu sendo um dos efeitos do progresso, do crescimento. O comércio europeu desenvolveu, os comerciantes genoveses e venezianos partiam para negociar até os confins do Mar Negro e lá entraram em contato com os mercadores vindos da Ásia. A peste negra devasta a Europa, e ceifa um terço de sua população durante o verão de 1348, entre os meses de junho e setembro. As formas de medidas para lutar contra a invasão da doença, era  fechar-se atrás dos muros, e principalmente proibir a entrada de estrangeiros.
       Um dos maiores problemas, era onde enterrar os mortos, não se sabia mais onde colocá-los, pois não havia mais madeira para fazer caixões. Então, a grande pergunta era "como resistir"? A medicina da época, já havia feito consideráveis avanços e as cirurgias realizadas eram de qualidade razoável, e os médicos possuíam uma noção dos mecanismos de contaminação, e recomendavam queimar ervas aromáticas nas ruas, para evitar os contágios pelo ar. Havia voluntários para enterrar os mortos e tratar dos doentes, esses voluntários arriscavam as suas vidas, mas os laços de solidariedade se estreitaram diante da calamidade.
   Quando um terço ou a metade da população desapareceu subitamente, as consequências sociais e psicológicas foram gigantescas. A epidemia determinou uma elevação geral do nível de vida, durante meio século a peste permaneceu no estado endêmico, com retornos em quatros ou cincos anos, até por volta de 1400, quando o organismo humano finalmente desenvolveu anticorpos que permitiu a resistência.

Autoria: Lidia Kathin Do Nascimento, estudante do curso de História (Licenciatura) da UFRN.

Referências:

DUBY, George. Ano 1000 ano 2000 na pista de nossos medos.1ª ed. São Paulo: Ed. UNESP, 1998.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

O encontro do homem, do oceano e do desconhecido.

Para a humanidade o oceano sempre foi um ambiente hostil. Na Antiguidade era povoado por criaturas míticas, que de alguma forma traziam ameaças ao homem. Sereias; Cila, monstro marinho da mitologia grega; o Leviatã, criatura submarina que aterrorizava os navegantes na Idade média, Circe, que apesar de não habitar no elemento água, vivia a beira da praia; o Kraken que ameaçava o imaginário escandinavo, em suma, há uma série de seres que habitam os mares e que conferem a ele uma identidade obscura e ameaçadora. A Bíblia, como afirma Júlia Tomás [1], apresenta o oceano como um elemento prejudicial e devastador, onde a hostilidade de Deus é representada, e é através desse comportamento que os primeiros sinais do apocalipse são interpretados.


Serpente marinha gigante atacando um navio, representada em um mapa do ano de 1539. Autoria: Olaus Magnus.

Para iniciar o nosso ponto de partida, iremos avançar alguns séculos e ancorar na Idade Moderna, no período das grandes navegações e da expansão ultramarina. Necessidades comerciais e religiosas (difusão do Cristianismo) impulsionou o homem moderno a enfrentar o Mare Tenebrum, Mar Tenebroso, como era conhecido o Oceano Atlântico na Idade Média. O reflexo do imaginário fomentado na Antiguidade ainda encontrava ressonância no período medieval. Os homens medievais tinham a crença de que o oceano estava povoado de monstros marinhos e tempestades caóticas que levavam o homem a um abismo sem fim, onde o desconhecido o impossibilitaria de voltar à terra firme. No entanto, entre 1450 e 1800, a descoberta de que os oceanos eram o caminho que conduzia ao poder econômico e político em escala global, mudaria o curso da história. Nesse processo, o oceano, local perigoso e pouco compreendido, onde as pessoas podiam se aventurar, mas nunca permanecer, passou a ocupar uma posição central nos assuntos humanos. As circunstâncias ocorridas no Renascimento, entre os séculos XV e XVI, contribuíram para as inovações tecnológicas que impulsionaram novas descobertas, que deslocaram o homem do mundo agrícola para o mundo urbano. Inúmeras foram as criações da Idade Moderna, dentre elas figuram a imprensa, aperfeiçoamento da caravela e de instrumentos naúticos, o domínio do processo seiger, que viabilizou a produção de moedas na Europa, o canhão de bronze, a construção do galeão de três mastros, com leme à popa dentre outras invenções que resultaram na expansão europeia [2].
É nesse contexto, permeado pelas inovações técnicas, que personagens esquecidos são resgatados. Essas personalidades tiveram prestígio na Antiguidade, quando as cidades-estados adotaram a Talassocracia como forma de poder: eram os homens do mar [3]. É nesse espaço, o mar, que é por excelência o lugar do medo, que o homem moderno, nesse caso nos referimos aos que estão de alguma forma relacionados à vida marítima, passa a maior parte de seu tempo e alimenta inúmeras lendas e fantasias que impactam na forma de pensar de toda uma sociedade. O oceano é um lugar duplamente perigoso, pois quando está calmo e jaz imóvel prenuncia a morte para os tripulantes, que podem morrer de fome e sede, e quando está agitado o vento direciona o navio para onde quer.
Jean Delumeau[4], em seu livro História do Medo no Ocidente, apresenta-nos uma série de provérbios da Antiguidade ao século XIX que denotam o receio de arriscar-se no mar. Na Holanda, de essência naturalmente marítima, era conhecido o ditado: "Mais vale estar na charneca com um velha carroça do que no mar num navio novo". Era costume dos latinos dizer: "Louvai o mar, mas conservai-nos na margem". Erasmo de Roterdã, escreveu em seu colóquio Naufragium: "Que loucura confiar-se no mar!". Sancho Pança, personagem do livro Don Quixote de La Mancha, do romancista espanhol Miguel de Cervantes, em uma de suas falas profere: "Se queres aprender a rezar, vai para o mar". Jean Delumeau aponta que esse provérbio é encontrado na Europa em diversas variações, como na Dinamarca, onde se falava: "Quem não sabe rezar deve ir para o mar; e quem não sabe dormir deve ir à igreja". Durante toda a Idade Moderna o homem que lida com o mar continua cauteloso não apenas pelo ensinamento dos provérbios, mas também pelos avisos expressos pelo discurso poético e pelos relatos de viajantes, como por exemplo o dos peregrinos em viagem para Jerusalém. No próximo post veremos trechos de algumas obras que expressam essas advertências, e a partir disso traçaremos um ângulo de análise observando que elementos estavam presentes nesses discursos.



Autoria: Andressa Freitas dos Santos, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.


Referências:

[1] TOMÁS, Júlia. Ensaio sobre o imaginário marítimo dos portugueses. Braga: CECS - Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. Universidade do Minho, Braga, Portugal, 2013. Clique aqui para ler mais sobre o assunto.

[2] ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 1985. Para ver detalhes sobre a obra clique aqui.
[3] SILVA, Luiz Geraldo. 2001. A Faina, a Festa e o Rito: Uma etnografia histórica sobre as gentes do mar (sécs XVII ao XIX). Campinas: Papirus. Esta obra pode ser lida parcialmente aqui.

[4] DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Conheça mais sobre Jean Delumeau aqui.


Sobre a jovialidade do tema “medo” na narrativa historiográfica


O tema “o medo” é de origem recente na historiografia. E a que se deve essa jovialidade na apreensão do medo como objeto historiográfico? Em “História do Medo no Ocidente”, o autor Jean Delumeau [1] defende a ideia que tal silêncio é oriundo “de uma confusão mental amplamente difundida entre medo e covardia, coragem e temeridade” [2]. Na análise do “medo”, o recorte espaço/temporal adotado pelo historiador é o Ocidente no interstício de 1348 a 1800 e é nele que o autor visa a empreender a sua aventura intelectual excitante, como ele mesmo a denomina.

Com uma narrativa fluida, como que nos convidando a empreender essa caminhada estimulante, Delumeau menciona que, no momento em que os valores burgueses começam a se desenvolver e a criar raízes na sociedade ocidental – por volta dos séculos XIV-XVI – são reforçados certos traços que exaltam a bravura, o destemor e estes transparecem, principalmente, em uma literatura épica e narrativa. Os heróis dos contos são sempre possuidores de um caráter intimorato. A sua honra se fundamenta no enfrentamento de inúmeros perigos a fim de possuir a glória e o amor incondicional de sua dama. Assim o prova a literatura do amor cortês, na qual a intrepidez, a valentia e a coragem são elementos preponderantes. Tais qualidades também aparecem na literatura das crônicas em que os feitos heroicos da nobreza e dos príncipes são constantemente ressaltados e aclamados. Vide os exemplos de João I, duque da Borgonha, cuja alcunha é significativa de sua bravura: João sem medo e de Carlos I da Borgonha, também conhecido como Carlos, o Temerário ou, o Terrível.


         João sem Medo [3]


 
          Carlos, o Temerário [4]



O contraponto ao paradigma do cavaleiro destemido se constitui como a antítese da massa timorata, covarde. De Virgílio a Montaigne, essa característica é muito evidenciada: “Montaigne atribui aos humildes, como uma caraterística evidente, a propensão ao pavor mesmo quando são soldados: percebem couraceiros onde há apenas um rebanho de ovelhas; tomam caniços por lanceiros. Associando, além disso, covardia e crueldade, ele assegura que uma e outra são mais especialmente próprias dessa “canalha de vulgo””[5]. Romance e teatro corroboraram o antagonismo entre os dois universos, simultaneamente sociais e morais, a saber: o da valentia – privativo – dos nobres, e o do medo – coletivo – dos pobres.


Esse clichê do medo peculiar dos humildes é diagnosticado também no período renascentista. Nos escritos de Symphorien Champier de 1510 – o qual, apesar de ser médico e humanista era um adulador da nobreza – transparece esse estereótipo: “ “O senhor deve tirar prazer e delícia das coisas em que seus homens têm sofrimento e trabalho”. Seu papel é o de “manter terra, pois pelo pavor que os homens do povo têm dos cavaleiros eles trabalham e cultivam as terras por pavor e medo de serem destruídos [6].


Em suma, em todos os paradigmas evidenciados nos escritos dos períodos acima citados vislumbram-se os porquês da reticência acerca da função e da relevância do medo na história humana. Da Antiguidade até um período recente, mas destacadamente na Renascença, o teor do discurso literário era engrandecer a intrepidez dos heróis que conduziam a sociedade, justificando, destarte, o poder de que estavam munidos. Contrariamente, o medo era a fração que cabia aos vilões e, por conseguinte, a razão de sua sujeição. A partir da Revolução Francesa, os plebeus lograram, pela força, o direito à bravura. Embora houvesse um novo discurso ideológico, este utilizou a mesma retórica do antigo, ou seja, passou a enaltecer o destemor da massa, dissimulando o medo.


Autora: Luciana Bezerra de Medeiros, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.

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[1] Jean Delumeau é um renomado historiador francês, conhecido por sua contribuição no campo da História das Mentalidades. Nas suas obras destacam-se temas como o medo, o pecado e a esperança da felicidade. Para saber mais, acesse aqui.

[2] DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Cia das letras, 1989, p. 13.



[3] Retrato de João Sem Medo (1371-1419), segundo Duque de Borgonha da Casa dos Valois, de autor anônimo. Suas mãos estão descansando sobre uma mesa de orações, a qual é guarnecida por uma tapeçaria com as armas dos Valois, Borgonha (herdada do seu pai, Filipe, o Audaz) e O Leão Flamengo (herdada de sua mãe, Margarida de Flandres). Trecho traduzido a partir de excerto encontrado aqui.  


[4] Carlos, o Temerário, retratado por Peter Paul Rubens (01/01/1618), pintor flamengo do estilo barroco. Retrato obtido aqui.

[5] DELUMEAU, op. cit., p. 14. 


[6] DELUMEAU, op. cit., p. 15.

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