sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Um dos agentes de Satã: o judeu


Após o século XV, com a expansão marítima e com o desenvolvimento do comércio que progrediu no centro do corpo social da Espanha, emerge uma classe que procurava elevar-se socialmente. Nesse espaço temporal, os judeus tinham uma liberdade moderada, pois não eram perseguidos na Espanha, como acontecia no restante da Europa. Dessa forma, foi possível que o povo judeu desenvolvesse potencialidades no campo intelectual. Jean Delumeau [1] nos fala que os judeus haviam se tornado os financistas dos reis e foram responsáveis por compartilhar com os cristãos a ciência e filosofia árabes. Estes judeus alcançaram posições importantes na política e economia. Foram médicos, professores e filósofos. Na Idade Moderna, o temor aos judeus atingiu um nível religioso tendo a Igreja como a principal responsável pela multidão de atrocidades cometidas a nação judia. Esse embate lançou uma forte propaganda antijudaica, atribuindo aos judeus a culpa pelos males que atingiam a nação. Utilizando um tipo de fanatismo violento, a Igreja, conseguiu persuadir a população cristã a perseguir fortemente os judeus por quase toda a Espanha. Influenciaram os reis católicos a perseguirem aos judeus e novos convertidos. A igreja propagava a ideia de que os “infiéis” estavam roubando os cargos e privilégios que deveriam pertencer aos cristãos. 

O argumento utilizado, pelos reis e a Igreja, para a instauração da Inquisição era a urgência de eliminar a heresia judaica e os novos convertidos. Pois para a Igreja, os judeus contaminavam a sociedade e deveriam dessa forma ser extirpados definitivamente dela. Nota-se que os Estatutos de Pureza de Sangue, do Concílio de Toledo, vedavam os judeus até sétima geração, de integrar as corporações profissionais, universidades e possuírem ocupações nas ordens religiosas e militares. O fato de a Igreja ter sido a última instituição a adotar os estatutos de sangue evidencia que o racismo religioso sofrido pelos judeus tinha um caráter mais social do que religioso. A Igreja adotou uma espécie de pedagogia do medo, ou seja, um conjunto de ações que legitimaram e introduziram no imaginário da sociedade sentimentos de medo, e insegurança, em relação ao povo judeu. Pois era recorrente sentimentos de hostilidade e medo; racismo religioso e incitação ideológica, propagadas pelas instituições do poder. Nesse período os israelitas eram homens livres, porém a partir das cruzadas esse cenário começa a se modificar bruscamente. Fernand Braudel [2] destaca a evidente correlação entre os movimentos da conjuntura econômica e demográfica e as perseguições, massacres, expulsões e conversões forçadas que são o martirológico da história judia.
Até meados do século XII os judeus assumiram o comércio internacional, sendo este fator um dos motivos para o surgimento de novos convertidos ao judaísmo. 

O medo dos judeus foi ampliado devido a ascensão das cidades, e consequentemente do homem hebreu com uma nova função estabelecida dentro desse cénario da revolução comercial: o papel do comerciante. À medida que as cidades cresciam o comércio também sofreu uma ampliação jamais antes vivenciada e o judeu passou a ocupar um cargo em evidência que propiciou uma paulatina mudança em suas condições financeiras, a partir desse ponto as perseguições começaram a se agravar e severas condenações foram criadas em uma tentativa de "aplacar" o êxito judeu tanto no aspecto econômico, como no aspecto religioso. A Igreja, ambiciosa em estabelecer sua hegemonia pela unidade monolítica da fé, voltou a mostrar, para seus os fiéis, o judeu como sendo um inimigo da fé cristã, e contra ele encadeou-se um sentimento de intolerância provocados pela hostilidade e medo imbuídos pela Igreja católica. Como exemplo desse cenário social, o ato litúrgico da colafização, que permitia em toda a sexta-feira santa esbofetear um judeu diante da catedral de Toulouse, em expiação à morte de Cristo. O historiador Luiz Roberto Lopez [3] fala que divulgava-se a ideia do deicídio, ou seja, a acusação de que os judeus teriam sido os responsáveis pela morte de Cristo.

 Representação de um judeu sendo queimado em praça pública. Autoria: Spiezer Chronik, 1485. Acervo do Museu de Prado, Espanha.


Encarregados pela morte de Cristo eles passaram a ser instrumento de desconfiança, empatia e desdém por parte dos cristãos. Pois haviam cometido o crime de deicídio que maculara para sempre o povo judeu. Dessa forma, surgiu uma campanha aintijudaica que disseminou um fanatismo religioso por toda Europa ocidental. As Cruzadas, por sua vez, fortaleceram o sentimento de ódio dos cristãos para com os judeus e a Inquisição serviu como forma de conter todo pensamento que contestasse os dogmas católicos autoafirmando a vontade do catolicismo como ideal e centralizando um poder livre de restrições. Muitas calúnias contra os judeus foram difundidas, como a profanação da hóstia e de envenenamento dos poços de água. 
Atribuíram aos israelitas a epidemia da peste bubônica do século XIV (já tratamos anteriormente desse tema no blog, clique aqui para saber mais), que através de uma fictícia conspiração de judeus, estes teriam propagado a peste contaminando as fontes de água. O racismo e intolerância religiosa contra os judeus perdurou por muito tempo, até que as influências iluministas afastaram esses ódios e medos, ou pelo menos tentou com suas manifestações, coloca-los em segundo plano nos porões dos acontecimentos. As heresias representavam para a Igreja o risco de perderem o posto de religião oficial. A propagação do medo no corpo social foi o principal elemento de um processo que que tinha como objetivo destripar da sociedade grupos que, para a Igreja, possuíam comportamentos que eram associados a heresias.

Autora: Leydiane Damascena Nóbrega, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN. 
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As ferramentas modernas e os novos meios de difusão dos medos escatológicos


É comum encontrarmos na historiografia medieval relatos sobre a chegada do Anticristo e o medo do fim do mundo. Esses dois acontecimentos parecem a primeira vista serem exclusivos do período medieval, mas ao analisarmos melhor vemos uma intensa propagação desses medos a partir de meados do século XIV. A resposta para essa forte divulgação está nos meios de difusão que passaram a ser usados no período Moderno. Para entender melhor a situação primeiro precisamos situar a conjuntura europeia nesse momento: um dos aliados que desempenharam uma intensa corrente de propaganda dos medos escatológicos foi a prensa, a gravura e o teatro religioso. Graças ao advento da prensa a comercialização de livros impressos pode ser viabilizada e os escritos puderam chegar a um número cada vez maior de pessoas. Peter Burke [1] informa que em 1500 haviam mais de 250 centros com gráficas montadas e cerca de 40 mil edições impressas, contabilizando cerca de 20 milhões de exemplares em um período em que a população da Europa era estimada em pouco mais de 80 milhões [2]. Consequentemente a alfabetização foi um fator decorrente das crescentes facilidades educacionais difundidas na época. Livros e outros materiais impressos podiam ser adquiridos em feiras ou com vendedores ambulantes a preços bastante acessíveis, além disso possuíam uma linguagem bastante simples que era compreensível até para aqueles que liam com dificuldades

Em suma, o cenário dos medos escatológicos no ano Mil foi radicalmente ampliado quatrocentos anos mais tarde à medida que a população letrada foi ampliada. Jean Delumeau [3] menciona que as prensas difundiram em numerosos exemplares e em diversas línguas livros como Vida do Anticristo (la vie de l'Antéchrist), autoria desconhecida, as Revelações de santa Brígida da Suécia, que dentre outras coisas prenunciava o fim do mundo e a necessidade da redenção do homem à Deus, a Lenda Áurea, assim como as previsões pessimistas dos astrólogos. Dentre os livros que os mascates, vendedores ambulantes, vendiam em maior quantidade estavam as previsões astrológicas. O Prognosticon de autoria do eremita alsaciano Jean de Lichtenberger foi impresso aproximadamente dez vezes na Alemanha entre o século XV e XVI. As previsões estavam baseadas em uma conjunção astrológica entre Saturno e Júpiter e um eclipse do sol que traria guerras, ruínas e desgraças que culminariam no fim do mundo. No século XVI em uma nova impressão da versão alemã Martinho Lutero escreveu o prefácio para o Prognosticon. Lutero era um fiel seguidor da ideia de proximidade do Juízo Final. A prensa veiculou tanto suas obras que talvez ele seja um dos personagens principais que contribuíram na difusão dos medos escatológicos. No livro Conversas à Mesa, feito a partir de anotações dos alunos de Lutero, é possível entrever o comportamento e a angústia do professor diante dos presságios do fim do mundo.
"[...] Um outro dia, o dr. Martinho disse muitas coisas referentes ao Juízo Final e ao fim do mundo, pois há seis meses vinha sendo atormentado por sonhos horríveis e apavorantes a respeito do último dia. É possível, disse ele, que não esteja distante, e as Escrituras estão aí para no-lo fazer crer. O que resta de tempo ao mundo, se o compararmos aos tempos que já transcorreram, não é mais largo que a mão; é uma pequena maçã, a única que se prende ainda debilmente à árvore e que está prestes a cair. [...] Então mestre Leonard disse: " Os matemáticos e os astrólogos pretendem que, no quadragésimo ano [1540], as conjunções dos planetas anunciam grandes acontecimentos"."Sim", respondeu mestre Martinho, "isso pode durar alguns anos, mas nossos descendentes verão a realização das Escrituras, e talvez sejamos nós as suas testemunhas." [4]
Lutero, assim como seus contemporâneos, era fortemente influenciado pelo tipo de literatura que circulava entre os vendedores de livros da época. Até mesmo a Bíblia sofrera tal tipo de influência. A Bíblia de Wittenberg do século XVI continha uma cópia levemente alterada do Apocalipse gravado por Albrecht Dürer [5] no século XV.




Ilustração da Bíblia de Wittenberg. Cena do Apocalipse gravada por Dürer (1498).

A partir do século XVI inúmeras representações do Apocalipse foram publicadas na Alemanha, porém todas copiavam de certa forma o trabalho de Dürer. Além dessas formas de divulgação, o medo do fim do mundo também encontrava uma forma de se perpetuar através do teatro religioso. As representações que difundiam o tema do medo do Anticristo e do Juízo Final costumavam atrair multidões consideráveis e reuniam um grande número de atores. Delumeau menciona a farta documentação que cita as encenações do Juízo Final em Munique em 1518 e em Lucerna, 1549. A Tragédia do Juízo Final, drama escatológico redigido por Hans Sachs [6] no século XVI atraiu grande público e foi ainda por muito tempo encenada.

Através das maneiras mais diversas, como gravuras, livros (propiciado pela imprensa), teatro religioso e por toda espécie de imagem, a sociedade da era moderna via-se cercada pelas ameaças apocalípticas de forma mais intensa que a historiografia medieval relata no ano Mil. As ferramentas modernas impulsionaram a ideia da vinda do Anticristo e a chegada do Juízo Final, ao mesmo tempo em que se vivia tantas descobertas e conquistas, o que já é por si só um paradoxo. A sociedade do período Moderno foi marcada ao mesmo tempo pelo progresso, e pela mentalidade fixa na ideia do declínio, do pecado e do Juízo.


Autora: Andressa Freitas dos Santos, estudante da graduação de História (Licenciatura) da UFRN.
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[4] LUTERO, Martinho. Conversas à Mesa. Viçosa: Editora Ultimato, 2006.


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